Avicena -- O filósofo precoce
Todos nós sabemos que o preconceito surge, na maior parte das vezes, por pura ignorância. O racismo, por exemplo, existiu (e existe) em todas as suas formas devido a ignorância em achar que a cor da pele da pessoa tinha alguma influência em sua capacidade intelectual. O sexismo, por causa da ignorância em achar que o gênero determina o que uma pessoa é capaz ou não de fazer. Na mesma linha de raciocínio, o preconceito contra o Islã provém, em sua maior parte, de um tipo de ignorância. Existem vários quando se trata desta religião (especialmente na época em que vivemos!), mas uma expressão dessa ignorância surge quando ouço que os árabes (em sua maioria muçulmanos) não contribuíram em nada para a sociedade moderna. Na verdade, só serviram para fazê-la andar para trás.
Ugh.

Como este é um blog sobre filosofia da religião, é óbvio que não ficaremos somente com os filósofos cristãos que influenciaram a história ocidental da filosofia da religião! Isso não seria filosofia da religião, seria filosofia cristã.
Os filósofos muçulmanos da era medieval tiveram uma importância absurda para que tivéssemos a filosofia (e a ciência, e a economia, e, e, e...) que temos hoje. Na verdade, sem a filosofia muçulmana, provavelmente os escritos de Aristóteles nunca teriam sobrevivido...consegue imaginar um mundo assim??? Sou só eu que tenho arrepios só de pensar nessa possibilidade?
Como os filósofos cristãos, o objetivo dos filósofos muçulmanos era o de reconciliar os ensinos de filósofos gregos com os do seu livro sagrado: o Alcorão. E, também como no cristianismo, você tinha aqueles que eram super empolgados com a filosofia grega e aqueles que...nem tanto. Dentre os empolgados está o grande Avicena!

Avicena (que é o nome latinizado do seu nome árabe Ibn Sina) foi um dos filósofos muçulmanos mais importantes da história. Ele era um prodígio quando criança: dizem que ele tinha memorizado o Alcorão aos 10 anos e aos 16 ele já sabia o suficiente para ser médico. Ele continuou no ramo da medicina e ainda encontrava tempo para estudar e escrever 160 livros sobre todos os tópicos imagináveis! Ele diz (história de pescador?) que memorizou os escritos de Aristóteles depois de ler 40 vezes!

Suas ideias filosóficas incluem o seguinte argumento:
1. A existência de Deus é necessária já que Sua essência implica Sua existência.
2. Se todas as criaturas do mundo são seres meramente possíveis (contingentes), como é que algumas se tornam reais e outras não? Deve haver uma causa para a existência de seres contingentes.
3. Cada criatura pode ter uma série de causas para que ela chegasse a existir, mas essa série não pode se prolongar eternamente. Algum ser necessário deve ter causado essa série originalmente.
4. Este ser necessário, é claro, é Deus.
Essa série de ideias influenciou dois megacéfalos da história da filosofia medieval: Maimonides e Tomás de Aquino.
Avicena também argumentou por algumas coisas que filósofos cristãos e muçulmanos acabaram discordando depois, como a eternalidade do mundo já que, se Deus é necessário, Seus atributos devem ser necessários também. Assim, Seu atributo de criador do mundo deve ser necessário e, portanto, eterno.
Parte dos escritos de Avicena foram traduzidos para o latim e, como eu falei, acabaram tendo um grande impacto nos filósofos subsequentes.
Então, da próxima vez que alguém disser bobagem sobre a influência do Islamismo no mundo, dê uma tunda na cabeça dele(a).
Brincadeira. Neste blog nós não fazemos apologia à violência. Só dê um livro de história para ele(a) -- na mão, não na cabeça. ;)